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Ter Nascido me estragou a Saúde

junho 30, 2010

Um corpo, um corpo, uma alma, um modo de pensar, um abalo císmico, uma arma, uma doença, um vício, um alguém, um modo, um gesto, um carinho, um outro corpo, um beijo, um sexo, um abraço, um gesto amável, uma palavra.

Ter nascido estragou-me, a saúde, a vida, a sociabilização, a caricatura, a face, a solidariedade, estragou-se.

Ter nascido datou-me a incertezas, a dúvidas, a tristeza, a indelicadeza, a malvadeza, a inércia, ao vazio, ao nada, ao simples, ao minúsculo, ao ameno, ao amargo, ao nada, ao nada, ao pouco.

Ter vivido tirou-me a paz, a suficência, a atenção, a normalidade, o amor, a raiva, o ódio, a inveja, o sucesso, a certeza, o tudo, a alegria, a família, a mãe, o pai, Deus, o retrato, as lembranças, você.

Ter nascido e ter vivido foram os piores presentes datados à ela, pequena meretriz que invade minha dignidade para impôr leis  para um caminho politicamente correto a seguir.

(Clarice Lispector em Para não esquecer, Crônicas)

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